15 julho, 2016

Fim do Inverno

Naquele dia, lágrimas de saudade brotaram dos meus olhos.
Primeiro tímidas, silenciosas.
Depois em ondas, incontroláveis e abundantes.
Deixei que rolassem sem barreiras,
e me tornei chuva salgada de dor.
Me joguei em suas janelas com força,
e escorri pelas vidraças que te protegiam.
Te vi imerso em luz, cercado da alegria não pude te dar.
Fui testemunha líquida da sua vida tão longe de mim,
em outros abraços e beijos,
alheio à minha constante saudade.
Então, esgotada, escorri pelo seu jardim
e penetrei no solo para alimentar as raízes de suas flores.
Deixei ali uma promessa de primavera,
como um presente para você,
criado das últimas lágrimas de meu inverno.


12 maio, 2016

Tive um amor

Tive um amor.
Tão meu, que só eu senti.
Tão puro, que não tinha forma.
Um amor profano, viajante, que marcou na alma
dores do coração.
Tive um amor que passou por mim,
e acenou de longe,
pois era só meu, e não seu...

21 março, 2016

Depois da Chuva

Quando o sol voltou,
a criança ainda se divertia no quintal.
Chegava perto,
olhava a poça de água da chuva,
via o céu azul refletido,
e pulava para dentro dele.
Ser feliz é como brincar
no céu limpo após a chuva:
pular nas nuvens claras de verão,
escolhendo o azul límpido renascido,
molhando os pés
e esquecendo as lágrimas que molharam o chão.

(foto Deposit Fotos)

13 novembro, 2015

Hoje

Hoje, aprendi que o tempo
me dá mais tempo.
E um sorriso que não é mais amargo
nem feito da solidão de antes.
Descobri que na janela vejo do alto
um caminho para além do que já conheço.
Depois de tudo, não há memórias
que possam segurar-me mais
no que já não sou.
E descubro-me de novo,
em cada visão que tenho de mim mesma.
Hoje traduzo-me nestas palavras,
rabiscadas em um novo caderno...


25 outubro, 2015

Eu-árvore

Sou árvore, em um bosque denso.
Nos meus braços-galhos tenho filhos-frutos, que dão sentido a tudo que vivi.
E sustentando meu tronco, tenho raízes-pais, que me ensinaram a enfrentar a vida de pé, mesmo durante os ventos fortes.
Durante as estações perco folhas, para depois ver nascer outras tantas, conforme são tristes os invernos, ou alegres, as primaveras.
Resisto ao tempo, mas não ao machado, e a dor que me corta é a que vem injusta e inesperada, daqueles que não conhecem a seiva que derramo, vinda da força que tenho por dentro.


28 abril, 2015

Baião

Meu pai gostava de dançar o baião.
Assim que a música começava, sempre Luiz Gonzaga, ele
se levantava e me estendia a mão, em convite.
Embora eu já soubesse de cor todas as instruções, ouvia com alegria
enquanto dançava: "arrastando os pés, vamos lá".
Ele cantava baixinho, acompanhando o cantor, e muitas vezes eu fui
a testemunha daqueles olhos marejados...
"por farta d'água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão"...
A saudade não tem ritmo.
É impossível acompanha-la, ou se alegrar com ela.
E hoje, sem meu par, deixei de dançar o baião.
Penso que ele está lá, cantando enquanto me vê:

"...então eu disse, adeus Rosinha

Guarda contigo meu coração..."

05 abril, 2015

Renovada

Tira os sapatos e pisa a areia morna.
Solta os cabelos e abre os braços,
nesta dança com vento e sol.
Corre destemida para o mar,
E mergulha em azul que também é céu.

No abraço de espuma,
ou no beijo respingado de sal,
um batismo de mulher renascida,
que tem na pele o gosto de liberdade
tão grande como o próprio sol,
tão constante como o movimento das ondas.
Neste caminho que recomeça no mar...